De todas as cartas do tarô, a que mais me fascina é O Louco (ou O Tolo). não por acaso, é a primeira carta dos Arcanos Maiores. é o herói que inicia sua jornada, representado, nos mais diversos baralhos, como um idiota ingênuo que caminha sem olhar onde pisa. em algumas iconografias, ele caminha precisamente para um abismo, levando apenas uma trouxinha nas costas. a despeito da tragédia que o espera, está feliz. e ainda tem a companhia de um simpático vira-latas.
quem conhece o tarô sabe que estamos tratando de arquétipos. e quem conhece Jung e sua arquetipologia, sabe que isso é a vida em seu mais puro psiquismo. não se trata de reconhecer o tarô como ciência ou de lhe dar um estatuto de adivinhação sobre o futuro. francamente, esta é uma discussão que me interessa muito pouco. o que realmente me interessa é compreender a jornada arquetípica dos Arcanos Maiores e o significado dos quatro elementos (água, fogo, terra e ar), no caso dos Arcanos Menores.
o Louco está em você quando você inicia uma jornada. o pressuposto é que a vida é formada por ciclos. mas um novo ciclo só acontece quando outro se encerra, o que significa que algo deve terminar para que outro algo possa começar. e então temos as dificuldades operacionais de abrir espaço, interiormente, aos nossos Loucos.
primeiro, porque geralmente não permitimos que os ciclos se encerrem. temos grande dificuldade em deixar pessoas e projetos “irem”. às vezes isso soa como perda (e pode ser), outras vezes entendemos como fracasso. nossa cultura não nos habituou ao desprendimento, especialmente em relação ao outro. nem sempre vemos que deixar alguém ir, o passado ir, é um ato de generosidade e de coragem.
segundo, porque geralmente temos medo do desconhecido. outras rotinas, com outras pessoas, desafios, linguagens e propostas são coisas que podem nos desestabilizar. é preciso ser um pouco Louco para aceitar começar tudo de novo, colocar uma trouxinha nas costas e ver no que vai dar.
terceiro, porque não admitimos que somos seres altamente imaginativos. estamos tão empenhados em fazer sucesso, obter reconhecimento e ser desejados, que deixamos de lado qualquer coisa que signifique o risco do ridículo ou do patético. não nos permitimos ser Tolos. estamos sempre muito preocupados em olhar firme para o chão que pisamos e em levar uma mala cheia das coisas que poderemos precisar.
os Loucos que moram em nós são constantemente sufocados. alguns velhos ciclos estão pedindo aposentadoria, e ainda assim nós relutamos – por inércia, por medo, por excesso de apego, por erro de avaliação. bastaria pegar a trouxinha, chamar o vira-latas, abrir o sorriso e permitir-se ser Tolo, sob o sol, à beira do abismo. e ver o que há.
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